BELOS TEMPOS

Desde 1985. São trinta e três anos. Como se diz no bingo, “Idade de Cristo”.

Trabalhávamos num banco. Depois desses anos todos, marcamos um encontro através das redes sociais, por estarmos todos em lugares diferentes. Primeiramente, a nossa ideia era marcar em um local onde ficaria mais fácil para esse encontro. Haviam moradores de Fortaleza, Maceió, Guarujá e São Paulo. Os amigos do Nordeste viriam no mês de abril para o Sudeste. Por eliminação, o Nordeste ficou de fora como local de escolha para o encontro. A maioria das pessoas, que morava na capital, queria um lugar diferente. Sobrou o Guarujá da nossa amiga Lúcia. Não queria colocar nomes nesta crônica, mas não falarei mal de ninguém, portanto, aqui vai a lista dos empregados do banco: Lúcia, Sonia, Clair, Isaura, Raquel, Eliza, Jânio e Nelson. Os homenageados desta crônica.

Tentamos marcar um encontro no Edifício Solaris, na cobertura, mas o apartamento não tinha dono, então marcamos no apartamento da Lu. Eu disse da Lu e não do Lu, lá no Guarujá. Lu de Lúcia, que comprou o apartamento com dinheiro do seu trabalho.

Quando estávamos todos reunidos e com as devidas apresentações de maridos, esposas e filhos, começaram as recordações.

Vou apenas narrar um fato, porque as recordações foram muitas. Fatos tristes de outrora que nos dias de hoje transformamos em história satíricas e rimos muito.

Onde já se viu a gente rir de assalto a bancos? Tivemos oito e devo dizer que a partir do segundo assalto a nossa experiência em olhar para o relógio que estava na parede era imprescindível, porque os policiais perguntavam sempre em primeiro lugar a que horas havia acontecido o assalto.

Um deles teve uma história muito engraçada. Os elementos adentraram no banco, anunciando o assalto. Um dos bandidos era manco. Enquanto eles faziam a limpa no banco, eu comentava em cochicho com a Isaura:

– Estou preocupado com essa sacola de roupas, não paguei as mercadorias. Se eles roubarem, estou perdido. Tomara que eles não percebam a minha sacola. Eles não notaram a minha sacola de roupas. Ufa!!!!

Terminando aquele assalto, o bandido manquitola disse:

– Fiquem com Deus e até a próxima.

Ficamos com Deus, mas não teve a próxima.

Depois de algum tempo, os bandidos foram presos. Eu e a Clair fomos reconhecê-los na delegacia, através de uma janela onde só a gente enxergava o bandido. Colocaram vários elementos e eu pedi para o policial se haveria a possibilidade de fazer o número 3 caminhar. O policial pediu e quando o número 3 andou, eu tive a certeza que era o assaltante, porque ele mancava da perna direita.

Pensei que estava tudo consumado. Bandido reconhecido e preso. Não foi bem assim. Depois de três anos fomos chamados novamente, agora em uma audiência. Eu e Clair ficamos na sala de espera, quando, de repente, aparece um sujeito sem uma das pernas, segurando muletas. Ele ficou em pé nessa mesma sala. Eu e a Clair olhamos por alguns minutos aquela pessoa e depois desviamos nossos olhares. Era ele, o bandido com cara de sofredor, dó e injustiçado. Acho que ele ficou até constrangido, saiu da sala e foi, talvez, para uma outra sala.

A Clair comentou comigo:

– Você viu o que eu vi?

– Vi.

– Você acha que é ele?

– É parecido, mas aquele era manquitola e este está sem uma das pernas.

– É verdade. Como um bandido roubaria um banco com muletas?

– Pode ser que ele fosse manco, depois gangrenou e perdeu parte da perna.

– Eu não vou reconhecer.

– Eu também não vou.

Nesse momento, entra uma outra pessoa na sala, que depois ficamos sabendo que era o advogado do bandido.

– Vocês estão esperando há muito tempo?

– Sim – eu respondi.

– É horrível esse negócio de audiência. Até um deficiente físico tem que ficar aguardando. Vocês conhecem ele?

– Não.

– Nunca o viram?

Senti que alguma coisa estava errada, porque ele só fazia perguntas referente ao deficiente.

– Nunca vi. Nem eu e nem minha amiga.

– Eu jamais faria um reconhecimento de uma pessoa cara a cara numa audiência com o juiz – disse o advogado.

– Nem eu. Se me perguntar se eu reconheço, responderei que não.

Chegou a audiência.

Na sala estava o juiz, o escrivão, o promotor, o bandido e seu advogado. O mesmo que havia falado comigo na outra sala.

Depois que o juiz falou sobre justiça e verdades, eu fiquei mais calmo.

– Sr. Nelson, não queremos colocar nenhum inocente na cadeia, mas não queremos deixar nenhum bandido solto na sociedade.

 Depois de eu narrar vários fatos ocorridos através de perguntas que o juiz, o promotor e o advogado de defesa fizeram, veio a pergunta final do juiz:

– Sr. Nelson, o senhor reconhece esta pessoa que está sendo incriminada?

– Reconhecer mesmo, não. É uma pessoa que lembra muito a fisionomia, mas o que mais me lembro é que ele mancava de uma perna, para ser mais preciso, a perna direita.

O juiz então perguntou para o bandido. O sr. usa alguma prótese na sua perna?

– Sim.

– Por que o senhor não está com ela?

 O bandido olhou para o advogado de defesa e o próprio advogado respondeu:

– Achamos que não seria necessário, ficou lá no presídio.

– É necessário, se ele está usando constantemente, deveria usá-la.

Não sei qual foi o veredito, mas a história da prótese deve ter incriminado o réu.

Relembramos muitas outras coisas, rimos muito, matamos saudades e mostramos como estamos.

O que se leva dessa vida são momentos e, tenho certeza, que nossos momentos serão inesquecíveis. Agora, temos novos momentos para continuar, porque esse grupo é inseparável e feito de um alicerce excelente, a amizade sincera.

Podem ter certeza que, ao ouvirmos “mãos ao alto”, isso é um abraço.

Esta crônica é para vocês, do Alto do Ipiranga, onde demos o nosso grito de liberdade e provamos que os verdadeiros amigos não morrem.

Publicado por Nelson Faria

Eu sou o que sou, porque faço da minha maneira. Simples assim. Sem prejudicar ninguém e amando todos, independente de raça e religião. Palmeirense de coração.

2 comentários em “BELOS TEMPOS

  1. Querido amigo agradeço sinceramente pela homenagem! Sempre guardarei o encontro que tivemos no coração pois para mim significou muito trabalhar com vocês. Uma família! Meu primeiro local passando num concurso; minha primeira agência; primeiro assalto a mão armada que presenciei, minha família porque me ajudaram muito!!! Obrigada pela existência de todos vocês!!!
    Quanto ao assalto que falou o advogado me pareceu um tanto quanto estranho falar com as testemunhas. Enfim, parabéns pela coragem de vocês!

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