PEQUENA CIDADE DO INTERIOR DO CEARÁ

José da Silva, 20 anos, negão, alto, nascido numa pequena cidade do interior do Ceará, conhecido como Zé Bodão.

Zé Bodão namorava Aninha, gaúcha, 18 anos, branca como a neve, estava a pouco tempo na pequena cidade do interior do Ceará.

Zé Bodão namorava, mas sempre queria algo a mais e Aninha dizia:

– Só depois do casamento.

Esta insistência durou 3 anos, quando finalmente casaram-se.

Chegou a tão esperada hora.

Lua de mel, nas serras gaúchas, frio…

O clima estava quente dentro do quarto, mas Aninha precisava falar algo a Zé Bodão.

– Espera um pouco. Teremos todo tempo do mundo. Preciso revelar um segredo.

– Agora não, conte depois.

– Não. Preciso falar agora, senão eu não tiro a roupa.

Zé Bodão deixou Aninha revelar o tal segredo.

– Você pretende ser pai?

Zé Bodão respondeu no seu linguajar:

– “Oxi”, mas é “craro”.

– Não posso ter filhos.

– Depois a gente “resorve isso”. “ Agora vamu ao qui interessa”.

Alguns meses depois, começou a crescer a barriga de Aninha. Os médicos não entendiam como Aninha ficara grávida. Foram feitas pesquisas no exterior e finalmente descobriram que um em um bilhão de homens tinham esses espermatozoides engravidadores.

Esta pequena cidade do interior do Ceará ficou mundialmente conhecida. Zé Bodão era o orgulho da cidade.

Começaram a chegar cartas e mais cartas dos quatro cantos do mundo. Vieram até cartas do Polo Norte. Um esquimó convidando Zé Bodão para conhecer sua mulher num Igloo especialmente construído para ele.

Zé Bodão ficou milionário, exportando espermatozoides.

Meses depois, tudo isto veio abaixo.  Zé Bodão não conseguiu engravidar ninguém. Virou manchetes de jornais. Era motivo de risos na pequena cidade do interior do Ceará.

Até os padrinhos de casamento, Tadeu e Tereza tiravam uma “casquinha”

Tadeu era gaúcho, branquelo, franzino e sempre dizia:

– Bah! Na minha terra é que tem homem macho, tche!

Zé Bodão não estava mais aguentando isto, mas sempre confiando que um dia tudo mudaria. O tempo é o melhor amigo.

Tereza, a esposa de Tadeu, também não podia ter filhos.

Passaram-se alguns anos e a pequena cidade do interior do Ceará, não mais comentava o episódio ocorrido com Zé Bodão. Aninha teve mais cinco filhos. Tadeu e Tereza eram padrinhos do filho caçula.

Até que um dia, esta pequena cidade do interior do Ceará, virou notícia novamente.

Tereza, mulher de Tadeu estava grávida.

Tadeu não queria que esta notícia se espalhasse pelo mundo inteiro, mas foi inevitável.

Zé Bodão foi motivo de risos novamente. Teve que se mudar da pequena cidade do interior do Ceará.

Nove meses se passaram e na pequena cidade do interior do Ceará nascem os filhos de Tadeu e Tereza. Trigêmeos. Todos mulatinhos.

Zé Bodão vingou-se de Tadeu e de todos os habitantes da pequena cidade do interior do Ceará.

Saiu nas manchetes dos jornais do mundo inteiro.

Obs. Crônica escrita em 1996 publicada no meu primeiro livro.

Publicado por Nelson Faria

Eu sou o que sou, porque faço da minha maneira. Simples assim. Sem prejudicar ninguém e amando todos, independente de raça e religião. Palmeirense de coração.

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